quinta-feira, 16 de maio de 2013

Meu novo livro já saiu: Deus Amanhecer



Eis aqui meus amigos, meu novo livro (este não é e-book, é impresso),DEUS AMANHECER.

As 150 páginas deste livro reúnem uma seleção de textos escritos desde minha conversão, em 2005, até aqui. São diversos textos inéditos, somados a outros publicados apenas em blogs e redes sociais, e que configuram o corpo principal deste Deus Amanhecer, acrescidos de uma antologia poética, com textos selecionados de meus quatro livros anteriores (livros que circularam apenas como e-books): Uma Abertura na Noite (2006), A Blindagem Azul (2007) CONTÉM: ARMAS PESADAS (2012) e Poemas da Guerra de Inverno (2012), além de poemas publicados na Antologia Águas Vivas I (2009). 
O livro conta com prefácio do querido poeta lusitano João Tomaz Parreira.
O livro foi impresso em pequena tiragem, para distribuição entre amigos e casas de leitura. Mas caso você queira adquirir um exemplar, escreva-me para assegurar que ainda há exemplares para venda.


Promoção


E mais: para quem desejar, já está rolando uma promoção, através da página do blog Arsenal do Crente no Facebook. Você pode ganhar este e mais um outro livro, Quando a Teologia Faz Diferença (Ed. Hagnos), lançamento organizado por Lourenco Stelio Rega. Para saber como participar, confira neste link: 
https://www.sorteiefb.com.br/tab/promocao/195836


sexta-feira, 26 de abril de 2013

A Ilha (Secreta) de Patmos


Foi num dia em que eu estava, como já me era costumeiro, assentado na praia deserta. Olhava absorto o mar. Ao volver a vista para ocidente, vi de repente uma criança assentada na areia, construindo castelos. Estava de costas para mim, mas virou-se no exato momento em que a mirei, e pude ver-lhe o rosto. Era o rosto de um velho. Tinha um sorriso sinistro na face, algo de meio maníaco, caricatural e doentio, como um vilão de desenho animado. Uma máscara? Não. Ele erguia as torres de seu castelo de areia com sofreguidão. Forçoso era admitir que a criança era um prodígio; a perícia arquitetural de seu castelo era de maravilhar, mesmo se fruto das mãos de um adulto. Ele soltava em tom sempre crescente e intermitente grunhidos ininteligíveis, grunhidos que eram como os de um bebê, num tom primal e indefinível, mas que de alguma maneira me soavam familiares. Balbúrdia de chiados e vozes que me impedia de sequer discernir quando ria ou chorava; seu lamuriar era ora como grito, ora como canção; e houve mesmo instantes em que eu julguei ouvir a abertura de uma ópera de Bellini, ou um trecho de Espinosa... Após certo ponto, ao atingir o que parecia ser o ápice de sua música caótica, ele golpeava com alegre fúria o castelo de grãos de areia, de homens amontoados, que construíra. E recomeçava outro castelo. E outro. Incansável em sua empresa. Inamovível de seu sorriso doentio. Antigo e novo. Tinha também um nome o menino, nome de funda raiz semítica, denotando talvez sua origem: Satanás.

Sammis Reachers

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Natércia Sarander, um conto de Sammis Reachers



Natércia Sarander

Despair. Desespero.
Próximo ao tornozelo direito.
Vermelhas.
Letras vermelhas tatuadas.

Era psicóloga do DEGASE, lotada no Instituto Padre Severino, reformatório para menores infratores localizado na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro.
Meu primeiro contato com o sobrevivente Viktor Frankl foi através dela.

Não que ela fosse pedófila ou pervertida, nada disso.
Tudo calhou: sua separação, sua dor, minha detenção, minha dor, literatura, terapias, olhares de fome paradisíaca. Dois esfaimados de paraísos.

O beijo não foi iniciativa de ninguém. Simplesmente beijamo-nos, uma inevitabilidade assim como o nascer do sol ou a morte de uma mosca três dias depois de nascida. Ficaria bem se apenas nisso, mas fomos além. Dezessete anos, trinta e quatro anos.

Quando fiz dezoito e saí, ela reuniu coragem e levou-me para sua casa. Nada de crimes, Guil. Nada de crimes, Natércia.
Os vizinhos que se danem. Toleram o casal gay, nada podem dizer de nós, e você tem esse carão de homem mais velho, e já é de maior.

A casa sem ela nos dias de semana. Todos aqueles livros. Parava depois de doerem-me os olhos. Trinta minutos, me recuperava e voltava para aqueles homens cheios de histórias e sugestões.

Você precisa arrumar um emprego logo. Todos esses livros. Está lendo mais do que eu!

A vergonha foi do dia em que uma das vizinhas de andar perguntou se eu era filho dela. Velha escrota, sabia que não. Velha escrota, uma faca nessa glote ficava-lhe bem. Deus me perdoe, é preciso suportar, como Frankl. Pô, nada a ver. Mas é preciso suportar.

No segundo mês ficou difícil, estresse no Instituto, a mãe dela ficou sabendo, ‘sou liberal sim, mas isso é demais!’, ruim de conseguir emprego.

Janota pode me conseguir um emprego no ferro-velho. Nada de desmanche, longe disso. O ferro-velho é legalizado, trampo limpo. Se começar a aparecer peça roubada eu pulo fora. Cadeia não.

“Que história hein seu Guil! Então arrumou uma mulher e agora quer trabalhar de verdade? Seguinte: aqui o pau come. Não tem arrego não. Olha o Pedrão ali, é só fardo de papelão molhado e prensado, sacão de latinha de alumínio nas costas, ferro e o escambau. Mas você não caguetou ninguém quando rodou, então eu, como sujeito homem, tenho que te dar essa moral.”

Não demorou uma semana, cinco dias no máximo. Eu até que estava aguentando o tranco numa boa. O Queixinho apareceu com umas muambas. Entrou no escritório, conversou com Janota. Saiu e descarregou tudo no pátio. Pega isso aqui Pedrão, leva pra cima.
Depois perguntei ao Pedrão, que parada era aquela. Liga não Guil, são umas peças que o Queixinho arrumou.
Poxa Janota, cê falou que não rolava treta. Liga não Guil, parei mesmo, mas essa tava muito barato, e o Queixinho tava dependendo...

Sabe, o acaso, assim como o azar, não existe. Mas ambos armam ciladas. O esquema das peças era grande, o dia era mau, a casa caiu em cascata.
Queixinho era cunhado de Luizão, um PM safado lá do Batalhão de São Cristóvão. O PM arrumava as peças, elas eram simplesmente retiradas do depósito de carros apreendidos pela polícia, os carros que ficavam lá abandonados pelos donos, que não podiam mais arcar com as multas e taxas. Queixinho era um dos encarregados de se desfazerem das peças, revendendo-as onde desse.

O comandante do 4°BPM fora exonerado, e novo comandante do Batalhão de Luizão resolveu acabar com a farra, que já era de conhecimento de quase toda a hierarquia. As batidas da Civil e da Corregedoria da PM foram simultâneas em vários lugares.

Chegaram miseravelmente na hora do almoço, antes das 13h00. Eu sabia que era a bronca das peças. Só estávamos eu e o Pedrão no ferro-velho. Eu iria rodar no artigo 180, Receptação, e possivelmente no 288, Formação de Quadrilha. Isso não era nada. Mas a vergonha para Natércia, não, ela me salvara do abraço de todos os satanases deste e do outro inferno. Essa vergonha, essa decepção, nunca! Pulei do parapeito da janela, ainda com a boca cheia do frango da marmita. Entrei no carro de Janota, que tinha ido almoçar em casa, a pé. Essa vergonha ela não iria passar. Gritos, tiros, para-brisa traseiro detonado à bala. O azar não existe, mas arma ciladas. Entrei em casa, eles não estavam me perseguindo. Era sábado, ela estava em casa. Deveria estar em Irajá na casa da mãe, mas estava em casa. Mas eles estavam me perseguindo. Antes de eu começar a explicar, antes de eu conseguir colecionar em meu coração as palavras que ofereceria à mulher de minha vida, eles arrombaram a porta. Ela estava parada, com o telefone sem-fio na mão, me perguntando o que tinha acontecido, por que eu estava lívido. Ela deveria estar na casa da mãe. O primeiro que arrombou a porta disparou.

Depois alegou que confundiu o telefone com uma arma, olhou para os cabelos curtos dela e achou que era um homem, e estava armado. Disse que não teve opção.

*   *   *   *   *   *   *   *

Por um milagre, ou um encadeamento de milagres, escapei de ser preso. Já se passaram oito anos. Casei-me e tive um filho, Viktor, esse garotão aqui no meu colo. Estou aqui neste culto da Assembléia de Deus em Guadalupe, a pregação de hoje foi sobre Jó, seus amigos e o perdão, e eu lembrei-me de Natércia. “Sociedades se constroem com perdão”, era a frase com que ela iniciava e terminava as seções de terapia coletiva, era a  máxima e o mote da psicóloga que amei. E isso foi sendo fincado nas pedreiras dos corações de toda aquela molecada perdida, palavras na brita, mantra a puxar o comboio de tudo o mais que ela nos ensinou.

Até hoje esforço-me em realizar esta máxima. Agora que encontrei a Cristo, entendo a eficácia equalizadora do perdão.

Por vezes creio firmemente que perdoei, e tenho certeza e paz; mas por vezes meu coração recorda e endurece até a morte. Não me vinguei, mas fui fundo no rastro dos porcos, pus uma mão na maçaneta da portinhola do inferno: descobri até onde o policial morava, viciado de merda, tinha duas famílias, duas vadias que prestavam-se ao papel. Cheguei a apontar uma pistola na cabeça de Queixinho. E o traíra do Janota, quando rodou bateu pros meganhas que eu sabia e participava do esquema. Ia incendiar-lhe a casa, crianças, o cão e tudo, mas não me vinguei de ninguém, não matei nenhum deles.

Mas como disse, cheguei a dar meio giro na maçaneta da porta. Dois anos depois de perder Natércia, conheci uma menina, no mesmo dia em que ia matar o policial. A história é longa, sei que você está curioso. Aquele dia foi mesmo um filme. Mas o que importa é que ela deu-me alento, me carregou pra igreja, me fez voltar a estudar. A poucos metros de minha vingança, perdoei o homem que havia cancelado minha família, a única que tive, e um milagre, ou um encadeamento deles, levou-me (poucos metros adiante!) até aquela que seria uma outra família para um homem sem qualquer esperança e nada a perder, mas, ainda que renitentemente, disposto a acreditar no perdão.

Hoje eu tenho minha vida, meus livros, minha esposa e meu filho. Prestei vestibular pra Psicologia e Sociologia, passei em Sociologia, me formo este ano. Continuo com minha fome de paraíso, que hoje é silenciada pelas promessas de Cristo, meu do tesouro mapa e salvo-conduto para a Paz. Descobri (ou confirmei) que não existe acaso ou azar: há erros e acertos, há crimes e castigos, ação e reação. E há o perdão, a quebra dessas cadeias, a mão de Deus equalizando as coisas, a única forma de vencer.

Ela sabia.

Sammis Reachers

sexta-feira, 29 de março de 2013

A Morte de Samuel Ricardo


A Morte de Samuel Ricardo

Para Kivitz, o temeroso da morte

Estou sentado solitário em meu sofá,
nesta sexta-feira da longa Paixão,
e ao contemplar a janela, 
a luminosidade que ela deixa passar
filtrada pela diáfana cortina de linho,
penso que um dia a Morte entrará 
por esta mesma janela, arrombando-a;
será talvez pela tarde, uma tardezinha
de paz e livros e solidão como esta.
Entrará epifânica, com um estrondo
de trovão, a Morte – um dragão
de escamas lindas, azuis como o céu e o mar.
Entrará arrombando os ferros,
explodindo a casa, ela a Morte,
a coisa mais desejável depois do Rei.



Sammis Reachers

sexta-feira, 22 de março de 2013

sábado, 16 de março de 2013

Nos dois mil anos da morte de Judas


Michael Coock


Nos dois mil anos da morte de Judas

Fui vendido
por trinta moedas de afeto

deceparam meu braço amigo com um sabre cego
desses de sicário, de uma alegoria de escola de samba
pelo suave sumo do sonho (e as monoaminas*)
que sobejam em meu fel sanguíneo.

Em maio faço 35 anos.

Ainda não aprendi a ganhar dinheiro.

Queria morrer neste ano gregoriano de 2013 e
não sei que será de minha poesia
daqui a dez anos,
se escreverei sobre a dor de Deus
ou sobre a minha.
Mas se sobreviver sei que persistirei
em biografar a dor onde quer que ela esteja,
como um imigrante turco em Dresden
fazendo o serviço sujo nas latrinas do Reich aniquilado.
E escreverei sobre aniquilação biológica promovida
pela Guerra Civil Chinesa (a Segunda), e marmelos e a mandrágora,
a quem nunca fiz poema.

Queria partir. Hesito; meu Pai é um abraço sem fim,
um acumular de patentes. Sarça que queima
 meus pedidos de baixa, Deus que protela e indefere,
sob os sorrisos de meu Advogado, paciente em seu amor.
Ele delega missões: redigir memorandos,
reconduzir almas erradias,
a captura dos que assassinaram a Lua
ou os dois filhos adolescentes de dona Maria, a vizinha.

Discípulo de Borges,
não sigo o calendário gregoriano,
mas o dos Cabalistas Negros de Kiev. Por ele,
Judas morreu faz dois mil anos,
tomando a forma de mundo. Nele


fui vendido
por trinta moedas de afeto.

Sammis Reachers
*Monoaminas são substancias bioquímicas derivadas de aminoácidos através do processo de descarboxilação. As principais monoaminas são as catecolaminas (a saberdopamina,  norepinefrina, epinefrina), originadas da Tirosina; a serotonina derivada da triptamina e a histamina que vem da histidina.

sábado, 2 de março de 2013

Mulher de Azul, poema de J.T. Parreira sobre tela de Natan Altman

Natan Altman, Retrato da poetisa Anna Akhmátova, 1914

Não, mulher de azul, o céu
 do teu vestido é um corpo, um coro
 de anjos te cantaria, e as rosas
 ao fundo como células que crescem benignas
 em nenhum outro lugar
 haverá perfume, mulher de azul
 com o sol a descer pelos teus ombros.

J.T. Parreira

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Motojadas: animais agonizam durante espetáculo de tortura no Brasil

(Foto: Captação de vídeo/youtube)

Por Lilian Regato Garrafa  (da Redação)
Modalidade de crueldade contra animais com o rótulo de entretenimento, a motojada ainda é pouco conhecida pela população em geral, mas está relativamente difundida no Nordeste, tendo reedições cada vez mais frequentes a cada ano. Trata-se da vaquejada com o acréscimo de uma motocicleta, para deixar a perseguição ao animal ainda mais cruel e covarde.
O “esporte” consiste em tortura explícita: o animal sofre uma perseguição implacável e tenta fugir em visível desespero, completamente desamparado e com mínimas chances de sair ileso. A função do torturador-motoqueiro, que conta com a torcida da plateia, é derrubar o animal, que recebe chutes, socos e não tem como se esquivar, restando-lhe apenas correr para fugir do puxão que o levará ao chão. Basta assistir a uma única competição para ver que a violência é algo claro.
Assim como na vaquejada, muitos animais morrem na arena ao bater a cabeça nas madeiras; outros têm o rabo arrancado durante a prova. A violência e os maus-tratos começam muito antes de os animais serem soltos na arena. Eles são confinados em um pequeno cercado, onde são atormentados, encurralados, espancados com pedaços de madeira e submetidos a vigorosas e sucessivas trações de cauda. Onde está a graça? O cabra macho é admirado pela sua coragem. Onde está o heroísmo em submeter um ser indefeso a intenso medo e sofrimento? Covardia de quem pratica. Sadismo de quem assiste.
O vídeo abaixo mostra alguns minutos das sessões de violência imposta aos animais:
Alguns estados brasileiros já aboliram práticas que promovem maus-tratos a animais em eventos festivos. Em outros tramitam projetos de lei com amparo legal. Rodeios, vaquejadas e agora as motojadas são inconstitucionais. O Art. 225 da Constituição Federal cita que cabe ao Poder Público “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade”. E o Art. 32 da Lei de Crimes Ambientais cita claramente como crime “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos”, com pena de três meses a um ano de detenção e multa.
Para o próximo dia 29 de julho, há programado um evento no interior do Ceará, que está sendo divulgado por meio deste informativo:
(Foto: Divulgação)
Existe um projeto em tramitação na Comissão de Turismo e Desporto que pretende proibir laçadas e derrubadas de bois e bezerros em rodeios e eventos similares. Mas enquanto tal projeto não entra em votação, é fundamental pressionar os órgãos governamentais, deputados, vereadores, comissões, exigindo o fim desses eventos.
E o mínimo que está ao alcance de cada um fazer para que eventos de crueldade como estes deixem de acontecer é boicotar não apenas o próprio espetáculo, mas também os artistas que recebem para participar e seus patrocinadores – e, para que isso seja mais eficiente, é ideal enviar mensagens informando o boicote à empresa que financia e aos artistas que participam. Faz-se necessário mostrar que o público não engole produtos que custam o sangue de animais e que vinculam sua imagem à violência explícita.
Não é mais possível suportar a exploração econômica da crueldade com o rótulo de cultura e manifestação popular. É crime e merece extinção.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

GOLFINHO PEDE AJUDA A HUMANOS: ASSISTA AO VÍDEO



 Um grupo de mergulhadores que realizava um mergulho noturno em Kona, no Hawaii, para observar arraias mantas teve uma surpresa inesperada. Um golfinho se aproximou de um dos mergulhadores (Keller Laros) e, calmamente, mostrou sua nadadeira lateral, onde uma linha de pesca com um anzol estavam enroscados e ferindo o animal. Keller entendeu o pedido de ajuda e começou a soltar o golfinho, que se manteve parado e tranquilo enquanto seu salvador o libertava, subindo à tona para respirar, quando necessário, e retornando.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A AMIZADE DE CAIM


A AMIZADE DE CAIM


Era um psicopata, um compilador do caos. Sonhava genocídios, explodir represas, envenenar reservatórios de água de colégios e presídios (ele sonhava em matar principalmente outros psicopatas, além da raia miúda, a baixa ralé de criminosos comuns). Era o almoço dos psicólogos forenses, o jantar das famílias brasileiras, que o comiam pelo Jornal Nacional.


Se existisse mesmo isso de reencarnação, poderia dizer-se que ele era o último estágio espiritual de Adão, já prestes a dissolver-se/integrar-se no grande Caos-Lúcifer.

No tempo da escola, antes bem de seus homicídios, eu não poderia suspeitar de nada disso. Ele me defendia, e isso o fazia automaticamente meu amigo. Mas confesso que era uma criança dura.

Depois de adulto, de reconhecê-lo pelas notícias dos jornais, foi que me deu de pensar porque afinal um coração de pedra-de-brita viera a se importar com um ‘amiguinho’ de classe. Ele provavelmente identificava-se com o mal em mim, ao ver-me, sorridente e animoso, quebrar garrafas da cantina e pias do banheiro, rabiscar mesas e paredes, desenhando armas, caveiras e cenas de sexo em todo o canto, mostrar-lhe as facas que trazia na mochila, dizer-lhe “um dia eu furo todos eles. No dia em que perder o medo de ser expulso, eu furo todos eles.”

Pacificado pelos livros e por Cristo, eu quedei, civilizado e cristianizado. Ele esculpiu em ódio sua saga. Incapaz de amar, hoje o entendo: ele amou o Adão em mim. E amou cosmicamente para além de mim: amou o Grande Adão, o Princípio Universal de Morte, em todas as coisas. E sua vida foi uma celebração deste Princípio.

Se suicidou como Judas, como todos os suicidas.

Pensar que poderia ter sido eu.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O Paraguaio de Campina Grande



O Paraguaio de Campina Grande

Everaldo trazia muambas do Paraguai. Relógios especificamente. Era um paraibano branco, forte, de cabelos à la Rambo. Eu trabalhei para Everaldo de 94 a 96, numa banca de camelô em Alcântara, São Gonçalo. Vendia os mais finos medidores temporais de toda a cristandade e além: era um harém da relojoaria universal, de todas as marcas, da Suíça a Tókio, passando por Paris e Nova Iorque, a 20% de comissão. Eu era um garotão viciado em quadrinhos, fliperamas e rock’n roll, e dava pra viver meus vícios sem passar fissura.

Hoje tem alguma graça, mas antes só me chocava o inusitado, o vão de tal morte: um caroço de azeitona.

Foi em 2003, na semana em que o então prefeito do Rio, César Maia, re-inaugurou o Pavilhão de São Cristóvão, a Feira Nordestina. Tomava, assentado numa roda de conterrâneos, uma cachaça vermelha, da terrinha, depois fui saber, dita ‘Santa Rita a Vermelha’. Estranho nome para uma santa, ou cachaça, mas dá na mesma, pensei na época. Engasgou com o tira-gosto, levantou-se já vermelho, deram-lhe socos nas costas, e tapas, e mais socos, muitos socos pelo que me disseram, mas não adiantou. Caiu ali, puseram-se a abaná-lo, mas já não havia ar, já não havia anima (espírito) naquele corpo.

Tinha na bolsa dez cordéis que me comprara, eu havia lhe encomendado. Eu adorava cordéis, como adorava os livrinhos de western, de bolso, que brasileiros escreviam com pseudônimos americanos. Pulp-fictions verdes e amarelos. Não sei por que digo isso, não quero fugir do assunto, do Everaldo, mas sempre que me lembro dele penso nos cordéis, ‘João Cabrobró contra Satanás’, ‘A rixa do Carcará contra o Sapo-boi’, ‘Morte e Vida Severina’, e outras fugas da secura do sertão, da secura nonsense e repetitiva da vida, do nonsense seco e tedioso da morte.

Sammis Reachers

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Namor, o Príncipe Submarino



Namor, o Príncipe Submarino

Balas de Açúcar Andorinha
Doces Andorinha
Matusalém Batata Palha
Sorveteria Panosi
Fraldas Descartáveis Panosi
Video-Locadora Panosi Play
Foto e Filmagens Panosi
Buffet Panosi
Video-Locadora Blue Sea
Lavanderia Armênia
Armênia Confecções
Pan Moda Íntima
Pensão Panosi
Panosi Pizzas
Vila de Quitinetes Panosian
Imobiliária Panosian
Incorporadora Panosian e Filhos
Motel Rio Stars
Hotel Rio Stars
Rio Stars Resort Angra
Rede Hoteleira Rio Stars
Panosian Espaço de Eventos
Pré-Moldados Panosian e Filhos
Empreiteira Stan Panosian
Shopping Panosian
Parque Aquático Panosian
Linhas Aéreas Region...
                                            ...morreu no voo inaugural de sua sequencial vigésima sétima empresa, na ponte aérea entre Rio e São Paulo. Seu avião caiu sobre o mar, próximo a uma praia.
Filho de armênios, predestinado empreendedor que montou seu primeiro negócio aos 14 anos (as dulcíssimas Balas de Açúcar Andorinha), workaholic, worklover, homem de seu tempo, exemplo de seu tempo, homem sem seu tempo. Foi meu patrão em seis de seus vinte e sete empreendimentos. Abnegado, combativo, negociador nato, conselheiro, coaching e  mentoring intuitivo: era o protótipo de homem que reunia em si os arquétipos que a revista Pequenas Empresas Grandes Negócios Exame idealizam, cada qual sob seus sócio-economáticos filtros, para um empresário de sucesso.

Traído pelas três sucessivas esposas, roubado pelos filhos, morreu, pois mesmo dono do maior Parque Aquático da América Latina (o atlântico, o oceânico Parque Aquático Panosian), nunca teve tempo de aprender a nadar: no minuto após o pouso forçado sobre o espelho d’água, antes de a pequena aeronave submergir, conseguiu sair do avião, mas morreu afogado. Fiéis às lições de seu mentor, os pilotos e seus dois sócios estavam focados demais salvando-se a si mesmos.
Também não sabia pescar, não sabia Cézanne ou Renoir.  Não que essas frugalidades inúteis pudessem salvá-lo. Também não sabia que morreria, nunca teve mesmo tempo para isso.

Sonegador de impostos, corruptor de corruptos, sempre um passo à frente de seus concorrentes, seja vendendo fraldas de porta em porta na favela, seja ganhando licitações fraudulentas e construindo prédios superfaturados para a habitação pública.

Stan Panosian, o otário mais esperto e rico com quem já comunguei. 

Sammis Reachers

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A constrangedora morte do buda napolitano - e outras três mortes de meu luto



A constrangedora morte do buda napolitano

Ele colecionava estátuas de budas, tinha coisa dumas duzentas.
Mas, claro, não era budista. Só achava algo felizes aquelas estátuas.
Agora ninguém sabe com quem ficarão.
Ele só tinha três amigos, Solimão, que é crente, eu, crente, e Menelau,
que não tem espaço na quitinete e acha por bem doar a coleção para alguma instituição budista. Esclareci que é difícil encontrá-las, e tais estátuas não têm sua chancela: são
quinquilharias feitas em cerâmicas de fundo-de-quintal, para enfeitar geladeiras da classe C ou D, geladeiras cujas donas creem que lhes trarão sorte e prosperidade financeira, as estátuas.
De mim, proponho fazer o que se deve fazer aos ídolos de barro, ouro ou papel-machê:
destruí-los sem misericórdia. Mas Solimão, o outro crente, tem “medo dessas coisas”. E “ele era nosso amigo.” Quem, o Buda?
Quanto ao defunto, era o Manolo, velho carcamano fugitivo da Camorra napolitana (quem saberá o que fez, com que mágoa magoou os mafiosos seus conterrâneos? Nunca contou.), instalado, na encolha, no bairro de Boassú, em São Gonçalo, com sua humilde mercearia.
Três foram as alegres causas de sua morte, as mesmas que já enviuvaram tantas cansadas & indispostas & respeitáveis senhoras mães de família: Viagra, prostitutas e sexo.
Morreu de infarto, barrigudo e sorridente como seus budas, na cama de um motel barato do Arsenal, aqui, pertinho de minha casa.


in Box

Dentro do supermercado Max Box, no Fonseca, em Niterói.
Tudo que nasce avança em direção a seu ápice. E descai. E morre.
Ali foi o ápice dele. A aceleração do processo. Numa fila de supermercado.
Num dia cinza de outono quente. Era funcionário do Detran.
Aposentadoria em 12 anos. Abriu os braços e gritou.
Aqueles gritos primais, sabe, que ensinam em terapias.
Depois de ter cativado a atenção de todos, sacou dois revólveres,
como se ensina nos filmes. Pessoas correram, ele fez mira. Fez e fez e deflagrou
pânico em donas de casa, estudantes comedores de Trakinas e velhotes
que vão ao supermercado apenas para comprar pão francês.
Foi rendido por um segurança mais ousado e sangue-frio.
Nenhum dos dois disparou.
Puxou dois anos no Galpão da Quinta, o Presídio Evaristo de Moraes.
Uma semana depois de ganhar as ruas, ao sair de um churrasco
de aniversário do filho, foi atropelado por uma moto.

De sua casa seu filho herdou cinco revólveres, que, fora os dois
apreendidos no mercado, formavam a coleção de revólveres de Geremias.
Era meu amigo, trabalhamos juntos na antiga CTC de Leonel Brizola.
Morreu sem nunca ter dado um tiro. O Geremias.


Réquiem Inaugural

Num beco em Vitória, Espírito Santo, surpreendido sem armas,
longe da Literatura e de Borges, morreu hoje, neste dia
um de 2013, Marcelo ‘Jamanta’.
Ex matador de aluguel, depois justiceiro, e garimpeiro,
ourives, cigano, bibliófilo e fino falsário de passaportes.
Na revolta dos Ianomâmis em 89 fez a opção pelos cães,
tomou o partido dos índios e matou seis pistoleiros
que estavam a mando da grilagem de terras.
Em Brasiléia, em 98, tomou o Daime, e teve alucinações com
o Aleph borgiano e um pretenso olho paridor do Universo,
sito 300 metros acima da foz do Orenoco,
estranha singularidade que não podia ser vista ou tocada,
mas ao entrar-se em seu campo de ação passava-se a
sê-la, a ser com ela, a ser-se todas as coisas e coisas mais
que ele não sabia explicar nem eu sabia entender,
história que sempre me fascinava.
Morreu sem conhecer a Istambul de séculos sobrepostos,
morreu sem roçar a realidade de sua namorada virtual,
riograndense a quem prometera tantos beijos, quando pudesse vencer
a tanta distância que os separava.
Morreu sem ter morrido onde sonhara morrer:
ao norte frio do orbe, numa floresta de faias.

Este é um Réquiem para um amigo, e me parece algo
de estético empregar o efeito dito eco:

morreu sem ter morrido numa floresta de faias
morreu sem ter morrido numa floresta de faias
morreu sem ter morrido numa floresta de faias
Marcelo Jamanta, num beco escuro de Vitória,
Espírito Santo,
três tiros no peito.




MARCIAL

Marcial está morto e era meu amigo.
Lembrei de Marcial nos idos, quando chegava no bar do Anísio, pedia sua cerveja, colocava a moeda na Jukebox e sentava-se a sofrer os sons dos Stones ou Beach Boys. Tsc.
Observava enquanto jogávamos fliperama, e depois eu me sentava em sua mesa. Ele muitas vezes, em suas divagações metafísicas, lembrava do velho Jardim.

"Antes da Queda, Sam. Antes dela comer a maçã, antes mesmo do Adversário manifestar-se no Jardim, algo já havia dado errado."

Eu olhava em seus olhos baços, de trabalhador cansado após um dia de serviço, sabia o quanto o trabalho dele o estressava, estressava qualquer um. Crias das ruas, civilizados à força, nossa maior ânsia após o trabalho era encontrar alguém digno e disposto a receber nossa distribuição de socos. Mas sempre em vão, a noite sempre morria levando nossas amarguras e mágoas de operários pseudo-anarquistas. Mas voltando ao Jardim:

"Uma cirurgia, Sam. Ocorreu uma cirurgia. A cirurgia deu errado, foi tirada uma costela de Adão e a cirurgia deu errado."

Morreu meu amigo herege, homem cansado, que ria de mim quando eu botava músicas da Mariah Carey para tocar na velha Jukebox. Homem ignorante, que sabia tanto mais que eu.



Sammis Reachers
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