quarta-feira, 13 de maio de 2015

Acordo Sempre Onde a Traição Impera - Sammis Reachers

Claude Howell

Acordo Sempre Onde a Traição Impera

Acordo sempre onde a traição impera
Onde o inverno é o sumo deus de cada coração e lar
E um caldo ralo de lavagem, em sujo alguidar
É o holocausto que deitam à primavera

Sempre desperto em países distantes
Ontem hoje e a cada dia piores do que antes

Sempre acordo num condado sombrio
Povoado de caveiras a abraçarem-me com seu frio

Acordo mormente triste num mundo nefando
Erigido com os átomos do Mal
Cujo diuturno crepúsculo vai tudo sepultando
Da aurora austral à boreal                 
                                             
                                               E não finda ou morre,
       Moendo tudo em seu negro bojo
       Disto acordo já cheio de nojo

Aos chutes despertam-me a cada novo dia
No centro de um fausto baile à fantasia
Onde todos, democratas, vestem-se de Mephisto

Cativo, arreio a cangalha que deitam ao meu corpo imundo
E mostro-lhes, em chagas e nu, meu eu profundo,
Desvelando no meu, vil, o ardente Coração de Cristo

A multidão bacante gargalha, mas três ou quatro arlequins
Num brilho de olhar, entendem que Um Outro Mundo Existe
E o restolho de esperança trôpega que há em mim
Nestes tênues olhares que brilham, resiste e subsiste

Desperto à meia-noite aos gritos de um tordo,
Sempre divisando já, no horizonte do dia
A doce hora de deitar, unívoca alegria

E quando deito sonho que neste mundo não acordo
E nesta hora, dentro deste sonho meu nunca vero
Sonho então o meu único sonho verdadeiro:

Vejo, Senhor Jesus, ao ressonar mais uma vez
Na cama solitária de minha invalidez
Num repente, à minha volta,
Romperem-se em grã revolta
As paredes de minha húmil choupana,
Fogo a grassar, da cama ao teto da cabana
E meu corpo, ardente, posto agora a flutuar

E então, em A Tua Volta,
Em O Teu Grande Dia (que havia de chegar)

Eu, transido em nova natureza, derradeiramente DESPERTAR.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Oito poemas de Mathias Raws: O ciclo de Natália



Ciclo de Natália

Quarta-feira

Pequena fada de porcelana
caminhando leve com seus passos
                                           de borboleta ou
severa deusa
séria - sensual - solitária lua
iluminando com seus olhos de paz
os caminhos adiante

queria seguir seus passos, pisar
onde você pisa
beijar todo dia os seus pés (despet)alados

Quinta-feira

Esse coração, essa dura & firme fortaleza,
como eu queria tomá-la de assalto
e fincar minha bandeira branca
em sua alta torre

Cultivar seus jardins
até enchê-los de rosas
e depois tecer uma cama de pétalas
para você descansar sua beleza
de índia iluminada

Suportar sua fúria e ouvir
suas broncas
com um sorriso impassível no rosto
feliz por tê-la como a tutora de meu coração.

Sexta-feira

Seus cabelos, esse oceano de delícias
de onde eu nunca deveria ter saído
desde aquela mágica/trágica primeira vez
em que entrei por entre eles

Seus cabelos, lugar de nirvana,
quebra dimensional, não-lugar,
onde um monge pode encontrar a (ilum)inação
e tornar-se um buda
um (silen)cioso e realizado buda
vencido por esta dimensão de perfumes, castanha maciez
e amorável loucura

Sábado

Menininha linda & retalhadora
que sorri
enquanto rasga minha pele frágil
com suas unhas de cristal...

Malévola
que pisa quem te adora
sádica senhora
cheia de nãos
não posso - não vou - não deixo - não
me aporrinhe
não sei como posso amar
a brutalidade de suas palavras
seu coraçãozinho de pedra
seus pés que não posso tocar...


Domingo

Sua pele morena & lisa
queria mapeá-la como a uma ilha do tesouro
para conhecer cada canto,
cada curva e esconderijo
e todos os dias
caminhar por essa ilha da fantasia
livre e solitário
como um pirata, um corsário,
ladrão e senhor do maior dos tesouros do mundo.

Segunda-feira

Menininha prematura
de alma tão velha, tão antiga
queria lhe fazer uma cantiga
que lhe rejuvenescesse a alma,
e a tirasse para dançar...
queria saber chegar
nesse seu mau humor
de assalto, dizendo à tristeza:
Mãos ao alto!
e tocando o terror
arrombando todas as portas
rompendo as cadeias e cordas
que lhe impedem de amar.

Queria ser Aquaman ou Namor,
o Príncipe Submarino
para alcançar, Tristeza, seu palácio
no fundo do mar
mas no lugar de nadadeiras, Deus
deu-me embaraçosas asas.

Dane-se o voo: por ti estou pronto
a descer e me afogar.
Deus me perdoará: desço para salvar Sorrisos,
esses nossos lindos e futuros filhos.

Terça-feira

Amazona, guerreira sereia ondina ninfa
minha musa teimosa & má
tesouro escondido no fim do anarco-íris
que eu nunca alcanço, por mais
que me esforce
- tesouro que não quer ser alcançado -
já não sei o que fazer
melhor te idealizar à distância,
e seguir sonhando com a fragrância
de seu perfume narcótico, alucinógeno,
que me viciou para depois degredar.

Você sabe onde me encontrar:
Estática ilha, estou ao alcance de um estalo de seus dedos,
se um dia você esfolar seus traumas, ou ao menos despir seus medos,
medos de felicidade e cumplicidade; o frio medo do aconchego.


BONUS TRACK: Um princípio num precipício

Ao invés de ser seguida, é ela que segue.
Cerca seu avanço em plena urbe, saia de hippie,
aquele perfume masculino que ela sempre usou,
que em seu pescoço se torna a bruma mais fatal,
um hálito da mistura de Diana e Afrodite
que ela consegue realizar.
Índia malsã, onça e cutia, predadora e presa,
primeira presença
primeira notícia a salvar uma triste semana.
Massagem cardíaca desta quinta feira
fôlego recambiado entre dois duros corações,
espelhos desta cidade má, madrasta
sempre ensaiando devorar o seu secreto
corpo de bailarinos.









quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Uma máscara para o Incognoscível


Faz tempo que não venho até aqui, Poema. Sabe como são as coisas, como não são. Vim lhe contar um sonho. Ele teve aquele raro (para mim, um não-profeta) tom augúrico, aquele élan de transcendência.
Um velho bastante enrugado. A materialização em carne do velhote do desenho animado Coragem, o Cão Covarde – pois afinal há alguma verdade em Platão. Iniciei, com a onisciência própria dos sonhos, vendo-o dentro de uma casa trancada, onde tudo jazia quebrado, com sinais de que assim já estava há tempos. O velho tem a expressão ranzinza até a medula, mas uma característica o define, resume e adjetiva: seu inviolável mutismo. Sua palavra recusa-se: ele é aquele que cala.
Me aproximei da casa, que embora trancada, possuía amplas janelas envidraçadas (a destruição da casa fora causada de dentro; o exterior apenas sofreu a ação do tempo).
Ao perceber minha aproximação, o velho ranzinza e silencioso imediatamente saiu daquela casa, atravessou a rua e adentrou em outra casa, a sua própria, onde se trancou em seu quarto. Perguntei à sua senhora, uma velha afável mas indiferente, e ela disse que ele não iria me receber de maneira alguma. De onde estava via tudo; você sabe que nos sonhos somos oniscientes deuses, embora tal poder se apresente embaçado, pois ali somos deuses em infância.
O velho tem algo a dizer, ele é a imensa possibilidade de comunicar algo, mas recusa-se, e foge furiosamente de mim.
Refletindo hoje, penso que o velho é a encarnação ou figuração do mais terrível dos versículos: “As coisas encobertas são para o Senhor, nosso Deus; porém as reveladas são para nós e para nossos filhos, para sempre, para cumprirmos todas as palavras desta lei” (Dt 29.29) - o Incognoscível, o conhecimento velado e impedido que pertence só a Deus. A casa destruída por dentro é a realidade da Queda, é o mundo onde estou e aquilo que sou; a casa é o próprio status ‘Queda’. Um furacão destruiu seu interior; o tempo acabou de debilitá-la. E aqui um insight menor: não é o tempo exatamente um furacão, mas camuflado numa velocidade hiper slow motion? E não é significativo que o velho estivesse DENTRO da casa?
O velho é perturbador e angustiante, mas ao mesmo tempo desejável, pois não causa medo senão estranhamento por sua alteridade, pois ele guarda um tesouro, ele próprio é o tesouro e seu feroz guardião. Um banco de dados e um firewall, ambos arquetípicos ou supremos no que são.
Mas de tudo o toque mais augúrico e o insight que deitou tal sonho a um superior patamar foi o fato de que, no sonho e apenas dentro do sonho, me lembrei de já haver sonhado com aquele velho; o mesmo mutismo furibundo e em fuga, múmia de dados encriptados (sei que sua aparência é apenas camuflagem e o velho método espantalho). Ao acordar, soube que nunca sonhara antes com ele; de onde então, no sonho, a certeza fotográfica daquela lembrança?
Esse humilde sonho foi um presente de Deus em meu prol; ao ‘materializar-se’, ao ganhar uma face, de certa forma me aproximei do Incognoscível, me aproximei daquele que me foge, cujo leitmotiv é fugir-me. O Impossível, ele agora possui um rosto, ao menos para mim; e dei um passo para além dos outros homens, ao menos para aqueles seletos e parcos para quem a existência do Incognoscível é um estorvo: pois eu agora posso reconhecê-lo na multidão. Ele a própria Incompreensão, eu agora posso vê-lo, ainda que de um único e turvo ângulo.

Meu Poema, nas filosofias e teologias de oriente e ocidente, Incognoscível quase sempre remete a Deus ou o princípio criador universal, a quem não se podem engajar atributos – o que não pode ser visto, medido, conhecido; o que não pode ser descrito. O conceito que dou à palavra é outro, ou seja, ele é simplesmente o volume ou abismo de conhecimento que não podemos apreender, seja devido à nossa própria natureza humana-finita (independente do evento Queda), seja à nossa condição de humanos caídos. Afinal Deus não é incognoscível, embora absconditus (Is 45.15), embora goste de ‘se esconder’, dada a separação multiníveis que a Queda interpôs ente Ele e o homem. Ele é um Deus pessoal, que se (re)revela ao homem caído ao longo da História, e que ao fim da mesma História, na plenitude dos tempos, revelar-se-á por completo, e o conheceremos como somos por Ele conhecidos. E conheceremos o que Ele conhece - e o velho abrirá as portas, e sua alteridade será equalizada, e ele estenderá a mão (1Co 13).

P.S. – Após escrever o ocorrido no sonho e minhas imediatas impressões, ocorreu-me outra expansão, menor em poder e clareza, pois como equiparar reflexão com revelação?:

Você acorda e vê, ao lado de sua cama, um círculo, melhor, um anel de alguns metros de diâmetro, flutuando diante de si. Nada há dentro dele; é um aro qualquer, um bambolê. Você entra no anel, mas nunca sai do outro lado. Esse é o Incognoscível. Ou: uma porta aberta no nada, uma porta diante de você: você entra por essa porta, você pode ver o outro lado, nada há lá senão a mesma paisagem em que você se encontra. Mas ao entrar, você nunca sai em lugar algum. Veja, não é um mergulhar no infinito. É um mergulho em lugar nenhum, é um devir, um eterno mergulhar e ao mesmo tempo uma paralisia – um impossibilitar-se no próprio oceano das possibilidades, um paradoxo como nunca houve nem haverá. Não há saída do outro lado. Não para mentes como as nossas. O anel que leva para todas as coisas, onde se entra-para-lugar-algum,  eis o Incognoscível.

Sammis Reachers

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Grandes poetas de 17 países que viveram e escreveram sobre a Segunda Guerra Mundial reunidos em Antologia gratuita


Sofro da estranha mania de organizar antologias.  Já são mais de dez. Some-se a esse furor antologista meu fascínio pela Segunda Guerra Mundial, fixação de infância, sendo mesmo anterior ao meu interesse pela literatura, e que ao longo dos anos nunca arrefeceu.
     Eis esboçado então o cenário para que eu volte à carga em minha maltrapilha sina de tapa-buracos das mal a(r)madas estantes de poesia: a esta altura do ano da graça de 2014, decorridos 69 anos do fim do maior conflito bélico e da maior exibição de atrocidades que a humanidade já vivenciou, não lhe parece, amigo leitor, de espantar que não exista uma antologia de poetas ou poemas da Segunda Guerra em nossa bibliografia lusófona, neste caso mais culposa e especificamente na brasileira (pois afinal Portugal manteve-se ‘neutro’ no conflito)? Tal lacuna sempre me pareceu digna de nota. Nos EUA tais antologias de guerra são comuns – você poderá contar com umas duas dezenas delas, de variados alcances e focalizações editoriais.
     Busquei coligir para esta seleta apenas poemas de autores contemporâneos ao conflito, e de países diretamente envolvidos na guerra. Sejam war poets “clássicos” (soldados-poetas que participaram em algum momento da guerra, engajados em exércitos regulares), sejam vítimas (população de países subjugados, judeus e minorias étnicas, críticos e inimigos ideológicos do regime), sejam partisans e combatentes das resistências que pululavam nas mais diversas frentes do conflito. E também o que se poderia chamar de poetas expectadores, que, embora nativos de países envolvidos na guerra, apenas a acompanharam pelos canais noticiosos, caso de alguns poetas dos EUA e de outros países americanos, como o chileno Pablo Neruda e brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e outros.
Esta é uma antologia breve – são apenas 134 páginas, mas que oferecem um significativo panorama de grande valor literário e histórico da riquíssima poesia produzida no período da SGM, ao abarcar em suas páginas grandes poetas de 17 diferentes nacionalidades.

Autores antologiados:
Bertolt Brecht (ALE) - Abgar Renault (BRA) - Carlos Drummond de Andrade (BRA) - Cecília Meireles (BRA) - Murilo Mendes (BRA) - Vinícius de Moraes (BRA) - Pablo Neruda (CHI) - Ivan Goran Kovacic (CRO) - Vladimir Nazor (CRO) - Archibald MacLeish (EUA) - Dudley Randall (EUA) - John Ciardi (EUA) - Karl Shapiro (EUA) - Randall Jarell (EUA) - Stanley Kunitz (EUA) - T. S. Eliot (EUA/ING) - Louis Aragon (FRA) - Paul Eluárd (FRA) - Pierre Emmanuel (FRA) - René Char (FRA) - Giorgos Seferis (GRE) - Odisséas Elýtis (GRE) - Tasos Leivaditis (GRE) - Gerrit Kouwenaar (HOL) - Jan Campert (HOL) - Gyula Illyés (HUN) - István Vas (HUN) - János Pilinszky (HUN) - Miklós Radnóti (HUN) - Dylan Thomas (ING) - Edith Sitwell (ING) - Keith Douglas (ING) - W.H. Auden (ING/EUA) - Giuseppe Ungareti (ITA) - Primo Levi (ITA) - Salvatore Quasímodo (ITA) - Sadako Kurihara (JAP) - Tamiki Hara (JAP) - Hirsh Glick (LIT) - Czeslaw Milosz (POL) - Zbigniew Herbert (POL) - Paul Celan (ROM) – Jaroslav Seifert (TCH) - Margarita Aliguer (URSS) - Marina Tzvietáieva (URSS) - Mikhaíl Dúdine (URSS) - Olga Fiódorovna Bierggólts (URSS) - Pável Antokólski (URSS) - Siemión Gudzenko (URSS)

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Buscando manter-me fiel ao meu princípio de produzir e disponibilizar bons livros, sempre gratuitamente, galgo mais um degrau em minha quixotesca empresa, mas ciente das dificuldades de divulgação que um trabalho de outsider assim encontra, principalmente através dos canais estabelecidos. Por isso, conto com cada um de vocês, leitores desta obra, para divulgá-la, republicá-la e passá-la adiante. A cultura é uma ação: precisa de agentes. Colabore!

domingo, 17 de agosto de 2014

Assista de graça o documentário sobre o ativista Aaron Swartz

Lembra que no início de maio nós divulgamos em primeira mão o trailer legendado de “The internet's own boy”, o documentário sobre a vida do ativista Aaron Swartz? Pois é, agora o filme já saiu e está disponível para download!
E não podia ser diferente né? Swartz foi um dos ícones na luta pelo conhecimento livre e foi preso e processado por baixar artigos acadêmicos. Aos 26 anos o norte-americano se suicidou, após ser condenado a 35 anos de prisão e a uma multa de US$ 1 bilhão. Até hoje ele é lembrado por aqueles que lutam para difundir cultura e informação de forma livre e universal.
O filme de Brian Knappenberger retrata a vida e a luta de Swartz, que  foi um dos criadores do feed de notícias RSS (aos 13 anos), fundou o Reddit e participou do processo de criação do Creative Commons.
“The internet's own boy” foi viabilizado por meio de financiamento coletivo e lançado no último dia 27. Para assistir o filme completo acesse aqui o Internet Archive
(link is external)
.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

PULSÁTIL - Poemas canhestros & prosas ambidestras - Baixe meu novo livro


     É com prazer que disponibilizo para download ou leitura online meu mais novo livro, Pulsátil - Poemas canhestros & prosas ambidestras.
     
Este livro é uma estranha antologia: reuni aqui poemas esparsos, dos mais novos aos mais antigos, de bons comuns poemas a B-sides, mas que não entraram, por quaisquer motivos, nos meus livros anteriores.
     E ainda um resgate: poemas de meu primeiro, terrível (de ruim) e renegado livrinho, São Gonçalo de Todos os Santos(1999).
     Salgando a miscelânea, a segunda parte do livro reúne uma pequena seleção de frases e pensamentos, geralmente publicados no Facebook. Alguns espontâneos, outros meditados, alguns devocionais, outros de viés mais carnal, satírico, espirituoso ou apenas gotículas de ácido destilado. E ainda algumas reflexões e prosas maiores.
     Falando em carnalidade, o livrinho termina com alguns textos de um certo Mathias Raws, falsário de passaportes e ladrão de bancos (regenerado) inglês, de cujo um poema retirei o título para este livro.
     E para completar a medida de balbúrdia em tudo isso, toques de minhas sinistras, canhestras incursões pelas artes plásticas também estão aqui, na figura de uma pintura, um objeto e fotografias.


     Provocações, balões de ensaio testando limites, ‘tentando’ os limites: sem estranhamento não há arte, não há literatura (mas apenas pedagogia, e a mais chã), sem o perigo das bordas do abismo herético, não se pode fazer boa teologia, não se pode expandi-la. Riscos que se corre e riscos que assumo, pois não vejo outra opção para justificar-me enquanto escritor. Não saberia fazer nada diferente.

O livro possui 113 páginas, e está em formato pdf.

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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Cantiga dos Moleques Fruteiros


Cantiga dos Moleques Fruteiros

Pedrinho tem fome de mato,
das frutinhas que tantas dão por lá:

Cajuí, taperebá, araticum e cajá
Cambuci, guabiroba, cagaita e maracujá

Juca menino erradio
pulou a cerca do sítio,
e lá se foi, frutas a roubar:

Pindaíva, marôlo, sorvinha e biribá
saguarají, feijoa, sapoti e joá

Gustinho não poupa ninguém
nem atina se a fruta é veneno;
se tem polpa pouca
ou se nem polpa tem,
a de vez ele come,
a passada também:

Mangaba, guriri, tucum e butiá
uarutama, bacupari, marmelinho e ingá

Renato é um bicho-do-mato:
chafurda nas matas,
rompe pelos florestins
sabe o tempo de cada fruta,
e deita sozinho a fazer seus festins:

Babaçu, inajá, catolé e bacuri
sapota, cupuaçu, araçá e cacauí

Fernandinho é moleque mateiro:
gosta é de pelar pé de árvore
no pomar da avó.
É fruta que não acaba tão cedo
e lá vai ele, arteiro, trepar no arvoredo:

Grumixama, cubíu, marmixa e abiu
guaburiti, pitangatuba, murtinha e camu-camu

Saltam riacho, cerca de roça,
mata fechada e o que se lhes dá;
Comem de tudo e tudo sem pressa,
sorvendo o bom doce de tudo o que há:

Acumã, pequiá, jameri e jaracatiá

aboirana, curriola, fruta-de-tatu e cambuiú.

Sammis Reachers

domingo, 23 de março de 2014

Um conto da Segunda Guerra Mundial - Carta do pracinha Dirceu para a jovem Marília



XXXX, Itália, janeiro de 44

A noite, como a morte, é uma carta de trás para a frente, Marília, uma carta que não se entende até que amanheça.

Marília, hoje avançamos sobre o monte xxxx. Não adianta eu escrever nomes e datas, a censura suprimirá essas informações, que de mais a mais pouco importam a uma menina de 17 anos numa cidade tão bonita como Niterói.

Não sei se lhe escreverei mais cartas, se há um amanhã com meu nome na lista ao final da fila de ração. Então, perdoe-me pela estranheza e extensão destas linhas aqui transcritas. Foram escritas em dias espaçados, sob influências diversas – mas todas apenas dimensões, fragmentações de você.

E então eu agora abertamente digo que te amo, amiga. Amo-te mais que tudo em minha vida, os poemas, os sambas, o Bangu, meus cães e a filosofia. Amo-te desde o primeiro dia que lhe vi ao lado de Michaela, e eu que pensava amá-la, mas depois percebi que não, que nada, que tudo em minha vida e na história de meu coração era aio e ensaio até você. Pois o coração de toda a beleza que pulula no Universo-aqui, no espasmo-agora, é você, Marília.
Sei da galanteria que o Marco lhe faz; sei que seu pai, não tão secretamente quanto ele pensa, faz gosto de tê-lo como genro. E sei também que você se agrada. Agora ele está aí ao teu lado, pois pode ver-te todos os dias, e eu estou aqui na Velha Bota, na cega neve, na arruinada madona que o Duce deflagou. Nesta disputa, se disputa havia, já perdi; se eu morrer e eu vou morrer, morrerei para que você possa ser feliz. Morrerei para não suportar, além do próprio peso da vida, a impossibilidade de você.
Tinha sonhos contigo, sonhos de casamento e roça, três crianças de quem eu, em secreto, adivinhava já os traços das faces. Terminaria o curso de Filosofia e iria dar aulas em alguma cidade pacata do interior do estado. Madalena ou Campos dos Goytacazes, talvez. Hoje queimo estes sonhos no altar da Guerra.
Tenho um pedido apenas: se em algum dia de tua vida de luz, sentiste algum afeto por mim, para além de nossa firme amizade, lhe rogo que nomeie teu primeiro filho com o meu nome; deixa-me estar próximo à tua lembrança enquanto você viver, pois sei que de mim a Guerra tudo requisita, como uma noiva voraz que quer o seu prometido e todo o dote, e ela nada poupará em seu holocausto.
Sei que falo coisas tristes e confusas demais e adultas demais para teu coraçãozinho principesco, mas preciso comunicar a alguém esta minha calma angústia, e é a você que comunico, pois você é mais que a pessoa que amo, é o próprio Universo onde habito, minha deusa lar, particular.

Na última carta você referiu lembrar-se de minha expressão antes da Declaração de Guerra, da forma como eu, durante as lições que lhe dava em sua casa, segurava o mapa da Europa nas mãos e quedava absorto por minutos silenciosos, ‘como se eu soubesse’. Marília, a História é um pano roto onde uma bruxa de candomblé lança búzios, búzios que dão sempre o mesmo resultado. Desde a invasão da Rússia, eu já sabia que o Brasil ingressaria na Guerra, eu sabia que haveria uma convocatória. Eu já treinava disparos, eu já sabia para onde fugir de ti, eu já sabia onde finalmente encontrá-la para sempre.

Escrevo este trecho de xxx. Mas todas as cidades por onde passei, Nápoles e Modena e Livorno, chamam-se você, todas as cidades da terra e do sol nomeiam-se secretamente Marília.

Aqui abraço a morte como se abraçasse você, menina. Nomeio a imperatriz-meretriz Morte com teu nome epifânico, e ela ganha ternura e sonho, cresce em intimidade sem perder a realeza. Vida ou Morte, Destino ou Acaso, como um grande Brahman dos hindus, escolhi ter você em tudo e como tudo, e que tudo a seja, foi a forma que encontrei para não perdê-la.

Nesta neve de menos 2 graus, lembro-me de nosso passeio na praia de Icaraí, sob o poder do carro de Hórus, o Sol que existe apenas para lhe dar um pedestal, Marília... Minha amiga, minha irmã, naquele dia, quando paramos em frente à Pedra do Índio e imprudentemente segurei a tua mão, não foi senão por amor!, amor que requereu-me um resgate, resgate cujo objeto é esta guerra e talvez a minha vida. Seja; amei-te e amo-te, e o Fuhrer ou a ciumenta Morte não hão de abalar isto, macular este mármore; ainda que implodam todos os mármores e monumentos da Itália, ainda que despedacem o céu em meu encalço e desçam comigo ao Sheol.

Aqui combatemos com fuzis M1 Garand americanos. Paralisados em nosso avanço, numa missão que a censura não permite nomear, peguei minha faca e com sua lâmina virgem risquei na coronha de meu fuzil o seu nome. E passaram a ter mais paixão e alcance os meus disparos. E se algum dia este fuzil passar a outras mãos, aquele que o empunhar saberá que há uma Marília no mundo, e há ou houve alguém que a amou – e isso é um rascunho de eternidade. Mesmo que eu morra um fuzil chamado Marília combaterá para livrar o país de Marília, a cidade de Marília e o coração de Marília.

Enfurnado no fundo de uma trincheira não há muito em que pensar. Amanhã, quando for matar tedescos (na carta de dezembro já lhe expliquei que aqui, por influência dos italianos, nós chamamos os alemães de tedescos), penso se matarei algum descendente de Schopenhauer, Hegel ou Kant. E será estanho assassiná-los, como ainda me espanta ter que combatê-los. E penso em meus livros de filosofia alemã em francês, que fim terão se eu morrer. Mamãe os queimará ou deitará fora? Diga-lhe para vendê-los no alfarrábio do senhor turco.
Se você lesse em francês ou tivesse intenção de aprender a língua, por certo deixaria tudo para ti. Mas não lhe apraz o aprendizado de línguas estrangeiras, e bem faz: elas é que devem estropiar-se para compreendê-la, ó pequena luz de tudo.
Você é o meu portentoso deus, o objeto de eleição de minha fé, raio e circunferência da religião que criei; aquilo que arbitrariamente sacralizo, meu lancinante talho na aorta da Realidade – platônicanarquica faca tomando o lugar do cosmocorpo que ela mata; mas o estranho deus dos judeus, do qual você tanto fala na última carta, talvez seja o único que realmente exista.

Nunca voltarei. Seja feliz com o Marco.

Meu último poema. Se eu pudesse, enfeixá-lo-ia para compor um livro, com todos os demais poemas dos quais você é a musa. Mas você os tem: livro dentro de um livro. Pois ao fim e ao cabo, todo deus é uma biblioteca. Mas não quero confundi-la.
Como sempre, nada como seus amados Bilac e Oliveira, mas mais para os franceses de que lhe falei. 
Adeus.


Batalha para alcançar Marília (poema 32)

Tuas palavras caíam no chão ribombantes
como granadas de sândalo:
eu avançava nu como quem sonha

Teus olhos congelavam o entorno, deusa:
moscas, sonhos, oxigênio
tudo era teu
ó mínimo-coração-do-mundo

A metralha tedesca cantarolava
mas seus atiradores e balas eram sombras
apresadas e impotentes na caverna platônica

Pois tu(a) é a Guerra, Minerva:
Tua boca era a bandeira a capturar, Marília, Valkíria,
como a piscina de hidromel sita no coração de Valhala
samadhi nirvana aniquilação íris de cada um
dos mil olhos de Brahman


Sammis Reachers

Do livro Poemas da Guerra de Inverno, segunda edição 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Um poema de Pedro Marcos Pereira Lima para Sammis Reachers


O amigo poeta Pedro Marcos Pereira Lima, honrou-nos com o belíssimo poema abaixo, ao que foi inspirado após a leitura do nosso livro Poemas da Guerra de Inverno. 
Compartilho aqui, com meus poucos leitores, esse texto, pelo qual agradeço ao querido Pedro pela honraria tão imerecida.

sammis
miss
missa
mas
sim
mami

és
re
encarne
ação!
Globo
Gouberi
Glauberização
poética
delírica
sanguinária
que nos amedronta
ator
menta
signinventa
apronta
guerraguerras

de Deus  e o Diabo
na idade da pedra
da terra em transa
no Sol de Inverno

Sol dado
amado
que rindo
passa suas cartas bombas
pelas trincheiras
pelos consulados
pelas divisas
das pontes da Amizade
entre patrulhas
caminhas invisível
com sua poesia

porque a ordem de cima
é que não te vejam
não te alvejem

tem um Sonho
que não para de crescer
em teus olhos

como dirias
começou como uma feridinha
que mamãe
beijou e passou

mas o mal tempo a guerra
o som ensurdecedor
das bombas

e depois
Deus
A Grande Explosão
Azul

cresceu de tal Vida
a ferida do Sonho
em teus olhos

que o hoje o tempo
em Sammis
não tem idade
é só Eternidade
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