quarta-feira, 12 de agosto de 2015

DEGELO, um conto de Sammis Reachers


Degelo

Sammis Reachers

      Por ser um Pregador da palavra, fui ressuscitado.

      Eles utilizam o termo ‘reiniciado’, mas tanto faz.

      Paretástase. O nome do problema. Não o meu: morri ou penso que morri em 2.057, num acidente num quartel militar da União Europeia, onde eu era capelão. Uma explosão: só me lembro disso. Eles me relataram o resto: fui congelado numa câmara criogênica à espera de ser revivido, quando pudessem recriar in vitro órgãos para substituir os meus que foram comprometidos pela explosão.   
      Décadas se passaram. E eu, juntamente com uma dezena de outros militares que haviam sido congelados, ficamos à deriva no Tempo, esquecidos num bunker subterrâneo, sub-vivos apenas pelo fato de o complexo ser autogerenciado energeticamente, o que garantia seu funcionamento sem a interferência humana.
      Mas voltemos à paretástase. Uma disfunção cromossômica, uma anomalia surgida no DNA alterado de toda uma cidade-estado. Efeito colateral causado por uma mutação induzida: para suportar as radiações gama, decorrentes da passagem do cometa Astianax C1b, em 2.129 o Naga Bei de Berlitz (um tipo de senhor feudal, comum nas cidades-estado e ligas citadinas surgidas na Europa depois do quase esfacelamento da civilização), resolveu alterar geneticamente toda a sua população, na época uns treze mil seres humanos, além de animais e híbridos. O objetivo era que eles suportassem as radiações sem a necessidade de trajes especiais, pois todo o tetra-amianto requerido para a fabricação de tais trajes estava alocado na China, e o Império Chinês, fragmentado e conturbado em seus próprios conflitos, não o vendia para ninguém. O pouco tetra-amianto que havia, era fruto de contrabando.
      O Naga Bei imaginava, além de garantir a sobrevivência de sua população fora dos edifícios e túneis, melhor capacitar suas tropas para atacar alguns adversários mais indefesos.
      O plano deu certo: as mutações mostraram-se eficazes, a radiação gama passou a ser de alguma maneira metabolizada pelos organismos. Mas apenas dois anos depois surgiram, como numa epidemia, os múltiplos casos de paretástase. As células mutantes passaram a rejeitar algumas monoaminas, substâncias/moléculas fundamentais para a manutenção da vida. Os cientistas do Bei não conseguiam reverter o processo inicial de mutação, e nem impedir o avanço da nova enfermidade.
      As Ligas Hanseáticas (a caricatura que restou de um organismo governante transnacional na Europa), cientes do problema, resolveram instalar uma ainsterdome, um tipo esquisito de domo ou barreira tecnobiológica, capaz de marcar, rastrear e eliminar (via biodrones) qualquer forma de vida. Neste caso, todos os habitantes de Berlitz foram marcados e isolados, impedidos de deixar o perímetro da cidade. A mutação era retransmitida de pais para filhos, e era de ordem das Ligas que ela não se espalhasse. Também não era do interesse das Ligas ajudar como fosse a população de Berlitz; seu líder era considerado persona non grata entre seus pares.
      Aos cidadãos cerceados de Berlitz, restou uma sinistra perspectiva: apenas aproveitar como pudessem os meses de vida restantes, enquanto eram aniquilados pela degenerescência genética.
      O Bei, homem antes pragmático e estrategista de excelência, estranhamente entregou-se a um soturno definhar: passou a viver uma vida de dissolução, gastando a metade de cada dia nas druggegs, os ‘ovos’ de realidade supra-virtual, onde o usuário poderia viver ‘outra vida’. Ao menos até lhe acabarem os créditos.
      Num dia menos cinzento, ocorreu a um de seus assistentes, burocrata com sanhas de erudição e agora inundado pela melancolia, falar-lhe do Rabi, do velho Rabi rejeitado por Israel. A princípio o Bei escarneceu do assistente, pois afinal isso era hora de ressuscitar as velhas religiões? Poderiam fazer algo por eles?
      Mas dois dias depois o mesmo assistente trouxe o Livro. O Bei assustou-se: era um livro de verdade, uma relíquia ainda feita de papel! Passou a lê-lo, a princípio com desdém, mas depois com certa contrafeita sofreguidão. Então era isso o cristianismo? Confuso por vezes, mas por vezes valorosamente simples. Passou a acessar os poucos textos e vídeos sobreviventes no Terminal. Não muitas coisas restaram, em termos de arquivos eletronicamente armazenados, após a detonação da Grande Bomba de Pulso Eletromagnético.
      O Bei achou as informações poucas. Mandou seu assistente procurar por mais livros de papel. Pesquisando por livros nos subterrâneos de Berlitz, o assistente encontrou o bunker. Pesquisando nos arquivos da câmara criogênica, ele encontrou algo que talvez surpreendesse o seu Bei: Não livros de papel ou arquivos eletromagnéticos ainda intactos, mas um pregador. Sim, um sacerdote ou shamã ou ministro cristão da corrente dita luterana, congelado logo abaixo deles, numa biocâmara (contra todas as probabilidades) ainda ativa.
      E assim, por ser um pregador do Evangelho, eu fui ressuscitado.

II

      A Bíblia de papel, ele deu-a para mim. Passei os seis primeiros dias isolado em sua fortaleza, apenas em contato com o próprio Bei, médicos e alguns de seu séquito.
      No curto e cansado tempo livre de minhas noites, quando já não precisava dar atenção ao Bei, dedicava-me à oração, e a assimilar informações sobre os feéricos e terríficos eventos históricos decorridos desde minha ‘morte’ em 2.057; também buscava estudar e compreender, na medida do possível, as novas tecnologias.
      Nunca iria imaginar, e tenho certeza de que nenhum de meus coetâneos, que a história do mundo seria tão atribulada, afigurando-se tão sobremaneira negra e sem sentido, àquela altura. Sempre acreditei que o Anticristo viria ainda no século XXI. Tudo estava tão encaminhado...
      Quanto ao Bei, não foi senão no quarto dia após minha ressurreição que o Espírito Santo arrebentou-lhe as muitas trancas do coração, e ele, crendo, fez a confissão pública de Cristo. No sétimo dia pôs-me a pregar para seus funcionários. De uns trezentos que ele reuniu num salão, mais de duzentos saíram logo nos primeiros vinte minutos. Os demais ficaram até o fim: preguei durante hora e meia. Fiz o apelo: trinta e nove mãos levantaram-se.
      No dia seguinte o Bei pôs-me para falar ao vivo nos waysies (os telefones neurais do futuro, ou melhor, de agora), para toda a população sitiada. Houve ampla rejeição; mas algumas boas dezenas de almas achegaram-se.
      Iniciei então uma pequena igreja. Nos derradeiros meses seguintes, muitos outros se juntaram ao Corpo de Cristo nascente.
      O Bei convertera-se realmente; para faci
litar-me o trabalho, deu-me acesso à omnirede, um tipo de rede social a partir de onde era possível conhecer em diversos detalhes a cada uma das pessoas da cidade, pois fuilogado na conta do próprio Bei, ou seja, a conta do administrador. Tive algum receio quanto à ética disto; a omnirede permitia-me vivenciar até alguns sentimentos e emoções dos usuários. Mas as almas precisavam ser salvas, exortava-me o Bei; não havia tempo. Eu não repetiria o erro cometido tantas e tantas vezes pela Igreja, que tardava em utilizar as tecnologias nascentes para a propagação do Evangelho, deixando por largo tempo seu monopólio para Satanás. Deus me perdoe se errei.


III

      Neste mundo fundado na instabilidade, não sei por quem, muito menos onde e quando será lido este relato, se é que alcançará leitores. Mas creio ser sumamente necessário explanar um pouco sobre as tecnologias e o panorama histórico que encontrei em Berlitz, e no mundo que a abriga. Por onde começar?
      Talvez pelo mais significativo, a omnirede. A omnirede era um tipo de ciber-psico rede social, quase uma rede telepática, mas operada por implantes neurais. Esses implantes neurais eram os waysies, os ‘celulares’ implantados em cada pessoa, ao completar doze anos. Eles permitiam a comunicação por áudio, imagens e até rudimentos do que se poderia chamar de sentimentos das pessoas, possibilitando interessantíssimas trocas empáticas, de uma maneira que não sei ainda explicar.
      Trafegar com acesso de administrador na omnirede era algo assustador: sentia-me como Deus perscrutando as almas dos homens. E perdi o sono, e perdi a fome por dias seguidos; o embate ético era um tormento em meu coração... Mas o Naga Bei estava certo: aquelas almas precisavam de ajuda, conhecendo-as eu poderia compreendê-las em toda a sua cosmovisão, seus medos e terrores mais primais, e saberia contextualizar a mensagem redentora para cada qual. Elas não dispunham do tempo frouxo onde se desenlaçam as sutilezas. O Bei queria que eu pregasse como quem golpeia.
      De dia eu pregava o quanto podia; à noite investigava as almas, febril em minha imersão, minha pulsão amorosa de poder alcançar cada coração, cada uma daquelas ovelhas genética e pneumatologicamente despedaçadas. Eu vivia à base de supressores de sono, pois não havia muito tempo, pois o tempo de Deus é sempre hoje.
      O dinheiro em Berlitz não era totalmente eletrônico e individualizado, como em meu tempo; havia derivado (mas prefiro o termo involuído) para um tipo de cartão de dados, sem bio identificação e legalmente pertencente ao portador, os nastorasts, cujo valor titular era limitado. Não acedia a contas em bancos ou algo parecido, não era sequer um ‘cartão de crédito’ na acepção de meu tempo: cada cartão tinha os dados de valoração financeira inseridos ou ‘carregados’ em si, fixos e não reembolsáveis em caso de qualquer problema. Os valores poderiam ser inseridos em terminais situados na Casa Governamental, edifício onde se localizava não apenas o corpo governante da cidade, mas também muitos dos serviços públicos vitais. O Naga Bei atuava como ‘banqueiro’ ou controlador do sistema de cartões, que eram também aceites em outras cidades-estado circunvizinhas.
      Os híbridos eram seres humanos mutantes, a quem foram acrescidos genes de animais, aprimorando características que se queria ressaltar, como tamanho, força e acuidades sensitivas (tato, olfato, visão etc.). Sua criação e proliferação estavam proibidas na maioria dos países e cidades-estado civilizadas e até nos ajuntamentos que poderíamos considerar semi ou pós-civilizados. Os que havia em Berlitz eram refugiados, abrigados ali pela clemência e também pelo senso de oportunidade do Naga Bei, que usava alguns em seu exército.
      Quanto à História e sua sucessão de desgraças, por onde começar? Primeiramente, deu-se o que já em meu tempo se assinalava prestes a acontecer: o governo da Terra foi unificado nas mãos de um Governo Global.
      Mas entre todas as desditas que este mundo suportou desde meu congelamento até aqui, o mais tétrico e significativo é o fato de que houve uma Revolução Cultural Global, conhecida por O Alinhamento, promovida pelo Governo Mundial, e que assumiu características de guerra civil (armada em muitos casos, noutros apenas ‘cultural’) em diversos países (ou entes federados, como passaram a ser chamados desde que o mundo foi unificado em 2.071), apenas para varrer as religiões do mapa. O argumento do Corpo Governante era de que elas eram “fontes infinitas de conflitos, eterno freio ao progresso humano”.
      Entre mortos e mortos para sempre, a revolução saiu-se vencedora.
      Os resultados foram variados em cada ponto da aldeia global. As mais prejudicadas, dentre todas aquelas ditas grandes religiões, foram o hinduísmo, que foi extinto, e o cristianismo, que desapareceu não de países, mas de continentes inteiros. Incluindo, inacreditavelmente, a Europa, seu segundo berço e antigo bastião. O islã sofreu reveses em diversos países, sendo extinto da África. Mas persiste em partes da Ásia e Oceania, e em minúsculos bolsões isolados no norte europeu. O budismo, restrito a esparsos focos dispersos pelo centro e sudeste asiático, sobreviveu apenas em sua corrente il’jiyan, forma sincrética que funde elementos do budismo e do islã, e que sequer existia em meu tempo, ou melhor, no tempo de minha primeira vida.
      E o Governo Mundial por trás desta cruzada anti-religião colheu o que semeou: em menos de meio século a coesão mundial sob a égide de um único governo esfacelou-se, e guerras de independência pipocaram por todo o orbe, atingindo até as colônias espaciais.
      O preço pago foi um retorno da barbárie, cujo ápice negro deu-se com a detonação da Bomba de Pulso Eletromagnético de que já falei. Foi detonada por russos a partir da Lua, num último suspiro para tentar deter a avalanche atômica de que eram alvo por parte do Emirado da Chechênia, num dos eventos tardios da Guerra Transeuropeia, uma das muitas guerras que afloraram com a implosão do Governo Mundial. Mas a arma era potente demais; todo o planeta foi atingido. Em escala catastrófica, equipamentos foram inutilizados, informações armazenadas perderam-se. Num cenário já de décadas de hecatombe, impossível calcular quantos morreram apenas pelos eventos provocados pela detonação do aparato russo. Isto deu-se há seis anos atrás; neste momento em que me encontro, a humanidade está em pleno esforço de recuperação dos efeitos da bomba. E os embates bélicos generalizados ainda persistem, em macro e micro escalas, impossíveis de mapear num mundo nova e completamente fragmentado.


IV

      Ao cabo de seis meses, todos os humanos e híbridos de Berlitz morreram. Foi terrível acompanhar a morte de toda uma sitiada cidade; foi ainda mais horrívelsobreviver. Devido à omnirede, eu conhecia de certo modo ‘pessoalmente’ a todas aquelas pessoas, como já disse. Preferia ter morrido no gelo criogênico a ter conhecido esta gigantesca desolação. Mas o que digo?! Senhor, perdoa-me. Se este foi o método assustador que lhe aprouve utilizar para recriar sua Igreja, quem sou eu para questionar?
      Vaguei por dias inteiros acompanhando os roboservs em sua busca por cadáveres para a cremação.
      Treze mil duzentas e doze pessoas e sessenta e seis híbridos. Cujas almas senti sendo deslogadas enquanto navegava pela omnirede.            
      Há dezenas de anos, todos os que eu conhecia morreram, enquanto eu permanecia no gelo, aprisionado entre a vida e a morte. Agora, mais uma vez em minha vida, todos os que eu conhecia morreram, e o que me contém é um vácuo, a amargura embriagada do absurdo, que sorri e me abraça.
      Estou só. Só contigo, meu Pai Silencioso.
      Há uma tecnologia em Berlitz que permite a inserção de metadados diretamente na pele, um tipo de ‘tatuagem’ nanoeletrônica. Você pode acessar os dados de qualquer dessas tatuagens de dados usando um tipo de aplicativo dos waysies. Peguei um dos equipamentos tatuadores numa loja abandonada, programei-o e o fiz tatuar o nome de todos eles em meu antebraço direito, o nome das treze mil duzentas e setenta e oito almas que o Senhor confiou em minhas mãos. Ovelhas transgênicas por quem darei um dia conta. E também os neuro-élans de todos eles, ou seja, o conjunto de informações sociais e vitais, sentimentos e ideias, um ‘resumo ontológico’ daquela pessoa, que a omnirede salvava ou fazia o backup quando da morte de um usuário. Meu Deus, como explicar isso? É como uma ‘fagulha’ de uma alma humana, um rascunho de imortalidade. Conforme a programação, a inserção feita pela máquina em minha pele assumiu o formato de um signo cruciforme, uma estilizada cruz.
      Entre salvos e condenados, tantas almas... Em meio a tanta tecnologia, almas mortas pela tecnologia. Tecnologia que prometera salvá-los. Mortas tão rápido. 

V

      E agora, o que fazer, Senhor? Pergunta retórica, pois sempre soube a resposta, ela foi descongelada comigo, e a bem da verdade foi ela mesma que me congelou e descongelou. Foi-me dada esta nova chance. Há um propósito e um tempo, seja um luminoso ou um maldito tempo, para todas as coisas debaixo do sol. Eis-me aqui, Senhor, no coração tecno-anárquico do caos, sob os olhares espantados da Morte-que-se-recusa-a-me-tocar, eis-me aqui... Esperava renascer num Milênio de gozo e paz junto a Ti, mas fui revivido num mundo apocalíptico, numa Europa tecnofeudal e arrasada. Não apenas num continente em ruínas, mas numa humanidade em ruínas.
      Sinto-me como o apóstolo Paulo, sou-lhe anuviado um tipo; a luz que ele viu no caminho de Damasco eu vi na explosão em nossa base militar; o Ananias que lhe abriu os olhos, eu encontrei no Bei. Os três anos que ele passou no deserto da Arábia, são os 70 anos que passei em êxtase criogênico.
      Recolho o que posso em nastorasts (os referidos cartões-dinheiro deles), alguns víveres, carrego as baterias de uma grande fluomoto e vou para fora. As barreiras das Ligas Hanseáticas terão que deixar-me passar, pois examinarão meus genes e ficará patente meu estado de ser humano ‘puro’, ou ‘base’, como eles dizem.
      Nesta Europa desolada, onde as perseguições islâmicas de fins do século XXI e as posteriores perseguições culturais globais anti-religião, somadas à Guerra Transeuropeia, destruíram até os edifícios e monumentos que remetiam ao cristianismo, nela segarei. Não há mais igrejas lá fora, ao menos não neste continente. A que fundei aqui, nasceu e morreu em seis meses. Sou a Ekklesia de um homem só. Como ekklesia, faço o que devo: vou para fora.


      Mas, porventura darão crédito à minha pregação?

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Acordo Sempre Onde a Traição Impera - Sammis Reachers

Claude Howell

Acordo Sempre Onde a Traição Impera

Acordo sempre onde a traição impera
Onde o inverno é o sumo deus de cada coração e lar
E um caldo ralo de lavagem, em sujo alguidar
É o holocausto que deitam à primavera

Sempre desperto em países distantes
Ontem hoje e a cada dia piores do que antes

Sempre acordo num condado sombrio
Povoado de caveiras a abraçarem-me com seu frio

Acordo mormente triste num mundo nefando
Erigido com os átomos do Mal
Cujo diuturno crepúsculo vai tudo sepultando
Da aurora austral à boreal                 
                                             
                                               E não finda ou morre,
       Moendo tudo em seu negro bojo
       Disto acordo já cheio de nojo

Aos chutes despertam-me a cada novo dia
No centro de um fausto baile à fantasia
Onde todos, democratas, vestem-se de Mephisto

Cativo, arreio a cangalha que deitam ao meu corpo imundo
E mostro-lhes, em chagas e nu, meu eu profundo,
Desvelando no meu, vil, o ardente Coração de Cristo

A multidão bacante gargalha, mas três ou quatro arlequins
Num brilho de olhar, entendem que Um Outro Mundo Existe
E o restolho de esperança trôpega que há em mim
Nestes tênues olhares que brilham, resiste e subsiste

Desperto à meia-noite aos gritos de um tordo,
Sempre divisando já, no horizonte do dia
A doce hora de deitar, unívoca alegria

E quando deito sonho que neste mundo não acordo
E nesta hora, dentro deste sonho meu nunca vero
Sonho então o meu único sonho verdadeiro:

Vejo, Senhor Jesus, ao ressonar mais uma vez
Na cama solitária de minha invalidez
Num repente, à minha volta,
Romperem-se em grã revolta
As paredes de minha húmil choupana,
Fogo a grassar, da cama ao teto da cabana
E meu corpo, ardente, posto agora a flutuar

E então, em A Tua Volta,
Em O Teu Grande Dia (que havia de chegar)

Eu, transido em nova natureza, derradeiramente DESPERTAR.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Oito poemas de Mathias Raws: O ciclo de Natália



Ciclo de Natália

Quarta-feira

Pequena fada de porcelana
caminhando leve com seus passos
                                           de borboleta ou
severa deusa
séria - sensual - solitária lua
iluminando com seus olhos de paz
os caminhos adiante

queria seguir seus passos, pisar
onde você pisa
beijar todo dia os seus pés (despet)alados

Quinta-feira

Esse coração, essa dura & firme fortaleza,
como eu queria tomá-la de assalto
e fincar minha bandeira branca
em sua alta torre

Cultivar seus jardins
até enchê-los de rosas
e depois tecer uma cama de pétalas
para você descansar sua beleza
de índia iluminada

Suportar sua fúria e ouvir
suas broncas
com um sorriso impassível no rosto
feliz por tê-la como a tutora de meu coração.

Sexta-feira

Seus cabelos, esse oceano de delícias
de onde eu nunca deveria ter saído
desde aquela mágica/trágica primeira vez
em que entrei por entre eles

Seus cabelos, lugar de nirvana,
quebra dimensional, não-lugar,
onde um monge pode encontrar a (ilum)inação
e tornar-se um buda
um (silen)cioso e realizado buda
vencido por esta dimensão de perfumes, castanha maciez
e amorável loucura

Sábado

Menininha linda & retalhadora
que sorri
enquanto rasga minha pele frágil
com suas unhas de cristal...

Malévola
que pisa quem te adora
sádica senhora
cheia de nãos
não posso - não vou - não deixo - não
me aporrinhe
não sei como posso amar
a brutalidade de suas palavras
seu coraçãozinho de pedra
seus pés que não posso tocar...


Domingo

Sua pele morena & lisa
queria mapeá-la como a uma ilha do tesouro
para conhecer cada canto,
cada curva e esconderijo
e todos os dias
caminhar por essa ilha da fantasia
livre e solitário
como um pirata, um corsário,
ladrão e senhor do maior dos tesouros do mundo.

Segunda-feira

Menininha prematura
de alma tão velha, tão antiga
queria lhe fazer uma cantiga
que lhe rejuvenescesse a alma,
e a tirasse para dançar...
queria saber chegar
nesse seu mau humor
de assalto, dizendo à tristeza:
Mãos ao alto!
e tocando o terror
arrombando todas as portas
rompendo as cadeias e cordas
que lhe impedem de amar.

Queria ser Aquaman ou Namor,
o Príncipe Submarino
para alcançar, Tristeza, seu palácio
no fundo do mar
mas no lugar de nadadeiras, Deus
deu-me embaraçosas asas.

Dane-se o voo: por ti estou pronto
a descer e me afogar.
Deus me perdoará: desço para salvar Sorrisos,
esses nossos lindos e futuros filhos.

Terça-feira

Amazona, guerreira sereia ondina ninfa
minha musa teimosa & má
tesouro escondido no fim do anarco-íris
que eu nunca alcanço, por mais
que me esforce
- tesouro que não quer ser alcançado -
já não sei o que fazer
melhor te idealizar à distância,
e seguir sonhando com a fragrância
de seu perfume narcótico, alucinógeno,
que me viciou para depois degredar.

Você sabe onde me encontrar:
Estática ilha, estou ao alcance de um estalo de seus dedos,
se um dia você esfolar seus traumas, ou ao menos despir seus medos,
medos de felicidade e cumplicidade; o frio medo do aconchego.


BONUS TRACK: Um princípio num precipício

Ao invés de ser seguida, é ela que segue.
Cerca seu avanço em plena urbe, saia de hippie,
aquele perfume masculino que ela sempre usou,
que em seu pescoço se torna a bruma mais fatal,
um hálito da mistura de Diana e Afrodite
que ela consegue realizar.
Índia malsã, onça e cutia, predadora e presa,
primeira presença
primeira notícia a salvar uma triste semana.
Massagem cardíaca desta quinta feira
fôlego recambiado entre dois duros corações,
espelhos desta cidade má, madrasta
sempre ensaiando devorar o seu secreto
corpo de bailarinos.









quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Uma máscara para o Incognoscível


Faz tempo que não venho até aqui, Poema. Sabe como são as coisas, como não são. Vim lhe contar um sonho. Ele teve aquele raro (para mim, um não-profeta) tom augúrico, aquele élan de transcendência.
Um velho bastante enrugado. A materialização em carne do velhote do desenho animado Coragem, o Cão Covarde – pois afinal há alguma verdade em Platão. Iniciei, com a onisciência própria dos sonhos, vendo-o dentro de uma casa trancada, onde tudo jazia quebrado, com sinais de que assim já estava há tempos. O velho tem a expressão ranzinza até a medula, mas uma característica o define, resume e adjetiva: seu inviolável mutismo. Sua palavra recusa-se: ele é aquele que cala.
Me aproximei da casa, que embora trancada, possuía amplas janelas envidraçadas (a destruição da casa fora causada de dentro; o exterior apenas sofreu a ação do tempo).
Ao perceber minha aproximação, o velho ranzinza e silencioso imediatamente saiu daquela casa, atravessou a rua e adentrou em outra casa, a sua própria, onde se trancou em seu quarto. Perguntei à sua senhora, uma velha afável mas indiferente, e ela disse que ele não iria me receber de maneira alguma. De onde estava via tudo; você sabe que nos sonhos somos oniscientes deuses, embora tal poder se apresente embaçado, pois ali somos deuses em infância.
O velho tem algo a dizer, ele é a imensa possibilidade de comunicar algo, mas recusa-se, e foge furiosamente de mim.
Refletindo hoje, penso que o velho é a encarnação ou figuração do mais terrível dos versículos: “As coisas encobertas são para o Senhor, nosso Deus; porém as reveladas são para nós e para nossos filhos, para sempre, para cumprirmos todas as palavras desta lei” (Dt 29.29) - o Incognoscível, o conhecimento velado e impedido que pertence só a Deus. A casa destruída por dentro é a realidade da Queda, é o mundo onde estou e aquilo que sou; a casa é o próprio status ‘Queda’. Um furacão destruiu seu interior; o tempo acabou de debilitá-la. E aqui um insight menor: não é o tempo exatamente um furacão, mas camuflado numa velocidade hiper slow motion? E não é significativo que o velho estivesse DENTRO da casa?
O velho é perturbador e angustiante, mas ao mesmo tempo desejável, pois não causa medo senão estranhamento por sua alteridade, pois ele guarda um tesouro, ele próprio é o tesouro e seu feroz guardião. Um banco de dados e um firewall, ambos arquetípicos ou supremos no que são.
Mas de tudo o toque mais augúrico e o insight que deitou tal sonho a um superior patamar foi o fato de que, no sonho e apenas dentro do sonho, me lembrei de já haver sonhado com aquele velho; o mesmo mutismo furibundo e em fuga, múmia de dados encriptados (sei que sua aparência é apenas camuflagem e o velho método espantalho). Ao acordar, soube que nunca sonhara antes com ele; de onde então, no sonho, a certeza fotográfica daquela lembrança?
Esse humilde sonho foi um presente de Deus em meu prol; ao ‘materializar-se’, ao ganhar uma face, de certa forma me aproximei do Incognoscível, me aproximei daquele que me foge, cujo leitmotiv é fugir-me. O Impossível, ele agora possui um rosto, ao menos para mim; e dei um passo para além dos outros homens, ao menos para aqueles seletos e parcos para quem a existência do Incognoscível é um estorvo: pois eu agora posso reconhecê-lo na multidão. Ele a própria Incompreensão, eu agora posso vê-lo, ainda que de um único e turvo ângulo.

Meu Poema, nas filosofias e teologias de oriente e ocidente, Incognoscível quase sempre remete a Deus ou o princípio criador universal, a quem não se podem engajar atributos – o que não pode ser visto, medido, conhecido; o que não pode ser descrito. O conceito que dou à palavra é outro, ou seja, ele é simplesmente o volume ou abismo de conhecimento que não podemos apreender, seja devido à nossa própria natureza humana-finita (independente do evento Queda), seja à nossa condição de humanos caídos. Afinal Deus não é incognoscível, embora absconditus (Is 45.15), embora goste de ‘se esconder’, dada a separação multiníveis que a Queda interpôs ente Ele e o homem. Ele é um Deus pessoal, que se (re)revela ao homem caído ao longo da História, e que ao fim da mesma História, na plenitude dos tempos, revelar-se-á por completo, e o conheceremos como somos por Ele conhecidos. E conheceremos o que Ele conhece - e o velho abrirá as portas, e sua alteridade será equalizada, e ele estenderá a mão (1Co 13).

P.S. – Após escrever o ocorrido no sonho e minhas imediatas impressões, ocorreu-me outra expansão, menor em poder e clareza, pois como equiparar reflexão com revelação?:

Você acorda e vê, ao lado de sua cama, um círculo, melhor, um anel de alguns metros de diâmetro, flutuando diante de si. Nada há dentro dele; é um aro qualquer, um bambolê. Você entra no anel, mas nunca sai do outro lado. Esse é o Incognoscível. Ou: uma porta aberta no nada, uma porta diante de você: você entra por essa porta, você pode ver o outro lado, nada há lá senão a mesma paisagem em que você se encontra. Mas ao entrar, você nunca sai em lugar algum. Veja, não é um mergulhar no infinito. É um mergulho em lugar nenhum, é um devir, um eterno mergulhar e ao mesmo tempo uma paralisia – um impossibilitar-se no próprio oceano das possibilidades, um paradoxo como nunca houve nem haverá. Não há saída do outro lado. Não para mentes como as nossas. O anel que leva para todas as coisas, onde se entra-para-lugar-algum,  eis o Incognoscível.

Sammis Reachers

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Grandes poetas de 17 países que viveram e escreveram sobre a Segunda Guerra Mundial reunidos em Antologia gratuita


Sofro da estranha mania de organizar antologias.  Já são mais de dez. Some-se a esse furor antologista meu fascínio pela Segunda Guerra Mundial, fixação de infância, sendo mesmo anterior ao meu interesse pela literatura, e que ao longo dos anos nunca arrefeceu.
     Eis esboçado então o cenário para que eu volte à carga em minha maltrapilha sina de tapa-buracos das mal a(r)madas estantes de poesia: a esta altura do ano da graça de 2014, decorridos 69 anos do fim do maior conflito bélico e da maior exibição de atrocidades que a humanidade já vivenciou, não lhe parece, amigo leitor, de espantar que não exista uma antologia de poetas ou poemas da Segunda Guerra em nossa bibliografia lusófona, neste caso mais culposa e especificamente na brasileira (pois afinal Portugal manteve-se ‘neutro’ no conflito)? Tal lacuna sempre me pareceu digna de nota. Nos EUA tais antologias de guerra são comuns – você poderá contar com umas duas dezenas delas, de variados alcances e focalizações editoriais.
     Busquei coligir para esta seleta apenas poemas de autores contemporâneos ao conflito, e de países diretamente envolvidos na guerra. Sejam war poets “clássicos” (soldados-poetas que participaram em algum momento da guerra, engajados em exércitos regulares), sejam vítimas (população de países subjugados, judeus e minorias étnicas, críticos e inimigos ideológicos do regime), sejam partisans e combatentes das resistências que pululavam nas mais diversas frentes do conflito. E também o que se poderia chamar de poetas expectadores, que, embora nativos de países envolvidos na guerra, apenas a acompanharam pelos canais noticiosos, caso de alguns poetas dos EUA e de outros países americanos, como o chileno Pablo Neruda e brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e outros.
Esta é uma antologia breve – são apenas 134 páginas, mas que oferecem um significativo panorama de grande valor literário e histórico da riquíssima poesia produzida no período da SGM, ao abarcar em suas páginas grandes poetas de 17 diferentes nacionalidades.

Autores antologiados:
Bertolt Brecht (ALE) - Abgar Renault (BRA) - Carlos Drummond de Andrade (BRA) - Cecília Meireles (BRA) - Murilo Mendes (BRA) - Vinícius de Moraes (BRA) - Pablo Neruda (CHI) - Ivan Goran Kovacic (CRO) - Vladimir Nazor (CRO) - Archibald MacLeish (EUA) - Dudley Randall (EUA) - John Ciardi (EUA) - Karl Shapiro (EUA) - Randall Jarell (EUA) - Stanley Kunitz (EUA) - T. S. Eliot (EUA/ING) - Louis Aragon (FRA) - Paul Eluárd (FRA) - Pierre Emmanuel (FRA) - René Char (FRA) - Giorgos Seferis (GRE) - Odisséas Elýtis (GRE) - Tasos Leivaditis (GRE) - Gerrit Kouwenaar (HOL) - Jan Campert (HOL) - Gyula Illyés (HUN) - István Vas (HUN) - János Pilinszky (HUN) - Miklós Radnóti (HUN) - Dylan Thomas (ING) - Edith Sitwell (ING) - Keith Douglas (ING) - W.H. Auden (ING/EUA) - Giuseppe Ungareti (ITA) - Primo Levi (ITA) - Salvatore Quasímodo (ITA) - Sadako Kurihara (JAP) - Tamiki Hara (JAP) - Hirsh Glick (LIT) - Czeslaw Milosz (POL) - Zbigniew Herbert (POL) - Paul Celan (ROM) – Jaroslav Seifert (TCH) - Margarita Aliguer (URSS) - Marina Tzvietáieva (URSS) - Mikhaíl Dúdine (URSS) - Olga Fiódorovna Bierggólts (URSS) - Pável Antokólski (URSS) - Siemión Gudzenko (URSS)

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Buscando manter-me fiel ao meu princípio de produzir e disponibilizar bons livros, sempre gratuitamente, galgo mais um degrau em minha quixotesca empresa, mas ciente das dificuldades de divulgação que um trabalho de outsider assim encontra, principalmente através dos canais estabelecidos. Por isso, conto com cada um de vocês, leitores desta obra, para divulgá-la, republicá-la e passá-la adiante. A cultura é uma ação: precisa de agentes. Colabore!

domingo, 17 de agosto de 2014

Assista de graça o documentário sobre o ativista Aaron Swartz

Lembra que no início de maio nós divulgamos em primeira mão o trailer legendado de “The internet's own boy”, o documentário sobre a vida do ativista Aaron Swartz? Pois é, agora o filme já saiu e está disponível para download!
E não podia ser diferente né? Swartz foi um dos ícones na luta pelo conhecimento livre e foi preso e processado por baixar artigos acadêmicos. Aos 26 anos o norte-americano se suicidou, após ser condenado a 35 anos de prisão e a uma multa de US$ 1 bilhão. Até hoje ele é lembrado por aqueles que lutam para difundir cultura e informação de forma livre e universal.
O filme de Brian Knappenberger retrata a vida e a luta de Swartz, que  foi um dos criadores do feed de notícias RSS (aos 13 anos), fundou o Reddit e participou do processo de criação do Creative Commons.
“The internet's own boy” foi viabilizado por meio de financiamento coletivo e lançado no último dia 27. Para assistir o filme completo acesse aqui o Internet Archive
(link is external)
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sexta-feira, 20 de junho de 2014

PULSÁTIL - Poemas canhestros & prosas ambidestras - Baixe meu novo livro


     É com prazer que disponibilizo para download ou leitura online meu mais novo livro, Pulsátil - Poemas canhestros & prosas ambidestras.
     
Este livro é uma estranha antologia: reuni aqui poemas esparsos, dos mais novos aos mais antigos, de bons comuns poemas a B-sides, mas que não entraram, por quaisquer motivos, nos meus livros anteriores.
     E ainda um resgate: poemas de meu primeiro, terrível (de ruim) e renegado livrinho, São Gonçalo de Todos os Santos(1999).
     Salgando a miscelânea, a segunda parte do livro reúne uma pequena seleção de frases e pensamentos, geralmente publicados no Facebook. Alguns espontâneos, outros meditados, alguns devocionais, outros de viés mais carnal, satírico, espirituoso ou apenas gotículas de ácido destilado. E ainda algumas reflexões e prosas maiores.
     Falando em carnalidade, o livrinho termina com alguns textos de um certo Mathias Raws, falsário de passaportes e ladrão de bancos (regenerado) inglês, de cujo um poema retirei o título para este livro.
     E para completar a medida de balbúrdia em tudo isso, toques de minhas sinistras, canhestras incursões pelas artes plásticas também estão aqui, na figura de uma pintura, um objeto e fotografias.


     Provocações, balões de ensaio testando limites, ‘tentando’ os limites: sem estranhamento não há arte, não há literatura (mas apenas pedagogia, e a mais chã), sem o perigo das bordas do abismo herético, não se pode fazer boa teologia, não se pode expandi-la. Riscos que se corre e riscos que assumo, pois não vejo outra opção para justificar-me enquanto escritor. Não saberia fazer nada diferente.

O livro possui 113 páginas, e está em formato pdf.

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